Alegria e o Natal

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Ouço, com frequência, por ocasião do Natal, muitas pessoas dizerem que alegrar-se neste tempo não tem muito sentido, pois, para elas, tudo não passa de mais uma “jogada de marketing” do comércio e da indústria – como tantas outras – concebida somente para faturarem, ainda mais, nas “costas do povo”.

Outros, olhando para a dura realidade da vida – cada vez mais competitiva, mais injusta, mais violenta e mais desumana – desiludidos, não encontram motivos para se alegrarem, alegando que a vida, fora de toda esta “fantasia” criada em torno do Natal, continua triste, sofrida e muito difícil.

Ora, estas posturas estereotipadas, apesar de, em alguns casos, terem lá certo fundamento, não podem, de maneira alguma, empanar o brilho e a alegria desta celebração que, como sabemos, ultrapassam as fronteiras da troca de presentes, da comilança e da bebedeira, que envolvem o Natal.

Inicialmente, precisamos nos recordar que a alegria do Natal não é mera alegoria infantil de pessoas alienadas e fora da realidade, ou de poetas encantados com a mística cristã. Muito menos é fruto dos símbolos criados pelo marketing para aquecer as vendas de fim de ano. Ela é, na verdade, um prenúncio divino proclamado por um anjo que, na primeira noite de Natal, anunciou:

“Eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador que é o Cristo Senhor”.
Lc 2, 10 – 11.

Ora, amigos e amigas, foi Deus – e não o marketing – quem relacionou o Natal à alegria que deveria contagiar todo o povo. Alegria que não deveria ser apenas uma euforia momentânea, fruto de meros prazeres efêmeros, mas algo perene que deveria estar presente, permanentemente, em nossos corações, pois é um bem inesgotável que provém de Deus.

A alegria é um dom que herdamos de Deus, por nossa origem e filiação divinas. Dom natural que não somente nós, homens e mulheres racionais, recebemos, mas também todas as outras criaturas por Ele concebidas. Podemos detectar a alegria brotando espontaneamente nos reinos animal, vegetal, mineral e em todo o cosmo, cada qual com a sua maneira específica de expressá-la.

Observem, por exemplo, um cão brincando com um trapo velho no quintal. Não é uma manifestação da mais pura alegria? Alegria que, por ser espontânea e natural, desperta em nós a alegria contida em nossos corações. Contemplem agora uma flor no auge do seu desabrochar. Suas cores, a textura de suas pétalas e o seu perfume, exalam tanta alegria que excitam e estimulam a nossa!

Atentem ainda para a grande alegria que emana do canto dos pássaros, das cores das asas de uma borboleta, do nascer e do por do sol, do luar, enfim de toda a natureza! Os esotéricos chamam a isso de “energia” cósmica, mas eu, como cristão, identifico-a como a alegria natural e divina que emana das criaturas de Deus e pode servir de “energia” ou de estímulo, para despertar a nossa alegria latente.

Do cintilar de uma estrela no firmamento ao murmurar das águas correndo em um riacho, podemos detectar, com facilidade, a alegria se revelando, permanentemente e de diversas formas, como uma gigantesca manifestação divina em todo o universo, fenômeno que não pode ser confundido com panteísmo.

A criatura humana, ao nascer, é naturalmente alegre, permanecendo assim enquanto tiver um coração de criança. Só perderá a alegria ao crescer, permitindo que ela se atrofie em seu coração, dando lugar à tristeza. Aí, triste, passa a buscar a alegria – encerrada em seu coração – em diversos prazeres externos que, dificilmente, conseguem lhe devolver a alegria espontânea com a qual nasceu.

Um poeta notório definiu a alegria como “a comoção diante da beleza”. Ora, do ponto de vista poético a definição talvez satisfaça, porém, para mim, a alegria ultrapassa a capacidade de nos comovermos diante do belo, do agradável, do perceptível ou do sensível. Ela é a capacidade de nos movermos na direção de Deus, descobrindo-O em todos os lugares, em todas as criaturas e em todas as circunstâncias, até mesmo na dor, no silêncio, nas dificuldades e nas provações.

Ela é nossa resposta a esta certeza de que temos de que Ele, acima de tudo, nos ama e que a prova maior deste Seu amor foi o nascimento de Seu Filho Jesus no meio de nós. Por isso afirmei anteriormente que a alegria do Natal é perene e independe de estímulos externos, para se manifestar naturalmente em nós!

Foi esta a razão do anjo proclamar que aquela boa nova seria alegria para todo o povo! E qual seria o motivo maior desta nossa alegria? O grande amor de Deus por nós que Se concretizou, de uma forma real, sensível e visível, e veio morar entre nós: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós”. Jo 1, 14.

Defino a alegria humana como um transbordamento natural de amor; logo, se amamos ou somos amados, seremos criaturas naturalmente alegres, ao passo que, se não somos alegres, não podemos dizer que realmente amamos ou que somos amados.

O amor e a alegria têm uma intrínseca relação, pois quem ama o faz na alegria e nunca na tristeza, senão, ora, não é amor! O amor, amigos e amigas, pressupõe a alegria e a alegria, por sua vez, como definimos acima, é uma manifestação visível, sensível, e, em nosso caso humano, consciente do amor.

A alegria não tem contraindicações, ao passo que a tristeza as tem e muitas, podendo inclusive nos levar à morte precoce. Quem nos afirma isto são médicos e cientistas que, estudando o comportamento de pessoas que manifestam doenças crônicas que envolvem o metabolismo humano, concluíram que os indivíduos tristes e mal-amados aceleram a sua morte, ao contrário dos alegres e de bem com a vida que sobrevivem por muitos e muitos anos, além das expectativas médicas.

Ora, a ciência nada mais fez do que comprovar o que Deus já nos havia alertado, há mais de 2.200 anos atrás, pelas Sagradas Escrituras. No livro do Eclesiástico (escrito 200 anos antes do nascimento de Jesus) encontramos esta passagem que, certamente, serviu de orientação para milhões de judeus e outros fiéis tementes a Deus, que viveram por muitos anos sem tomar medicamentos:

“Não entregues a tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem. A alegria do homem torna mais longa a sua vida. Afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma”.
Eclo 30, 22 – 25.

Deus é pura alegria, amigos e amigas, e quem atribuiu outros comportamentos a Ele, opostos à alegria, foram os sacerdotes do Antigo Testamento que não tiveram o privilégio de terem vivido após o nascimento de Jesus que nos ensinou que Deus é Amor e, se é Amor, é também Alegria e nunca vingança, rancor, ódio ou castigo…

Por isso é que São Paulo assim nos exorta: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos em Cristo Jesus”. Fl 4, 4 – 7.

Portanto, queridos amigos e amigas, seguindo o conselho de São Paulo, vamos nos alegrar no Senhor, que se aproxima mais uma vez de nós, pela celebração de Seu Natal, apresentando a Ele as nossas inquietações, as nossas tristezas, decepções e as inúmeras preocupações que povoam a nossa inteligência humana.

Pela oração, por nossas súplicas e por muitas ações de graças, neste tempo do Advento que antecede ao Natal, vamos deixar que a paz que provém de Deus guarde os nossos pensamentos e o nosso coração, enchendo-nos de alegria neste Natal e em todos os dias do ano de 2017 que se aproxima!

Antonio Miguel Kater Filho

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